Nova variedade de arroz emite 70% menos gases do efeito estufa no cultivo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Cientistas apresentaram uma nova variedade de arroz capaz de emitir 70% menos metano, gás produzido naturalmente nos campos alagados de cultivo, que colabora para o aquecimento da atmosfera. A nova planta foi comparada a uma variedade de alta qualidade cultivada na China.

O desenvolvimento do novo tipo de arroz está descrito em um artigo publicado no início de fevereiro na revista científica Molecular Plant por cientistas da China e da Suécia.

Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), a produção global de arroz no ciclo de 2023 a 2024 foi de mais de 522 milhões de toneladas.

Grandes consumidores do cereal, China e Índia ocupam, nesta ordem, o primeiro e o segundo lugar entre os maiores produtores do grão, sendo responsáveis por 28% e 26% do cultivo global, respectivamente. O Brasil é o 12º maior produtor do mundo (1,4% da produção global), segundo classificação do USDA -o Rio Grande do Sul é o estado que mais produz.

De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), mais da metade da população mundial depende do arroz para cerca de 80% de suas necessidades alimentares.

Mas a emissão de metano durante o cultivo nos campos alagados ainda é um ponto sensível dessa produção. O arroz é responsável por cerca de 11% do total das emissões de metano causadas por atividade humana, de acordo uma pesquisa publicada em 2023 na revista Frontiers of Agronomy.

O metano, assim como o gás carbônico, é um gás de efeito estufa. Ele é gerado em processos como decomposição da matéria orgânica, digestão de animais e metabolismo de alguns tipos de bactérias.

Embora as concentrações de gás metano na atmosfera sejam bem menores do que as de gás carbônico, cientistas estimam o potencial de aquecimento do metano como sendo 28 vezes maior.

No caso das plantações de arroz, o metano é o resultado da decomposição da matéria orgânica em um ambiente anaeróbico (a parte inundada, sem oxigênio), explica Walkyria Scivittaro, pesquisadora da Embrapa Clima Temperado, especializada em solo e mudanças climáticas.

“A planta de arroz não produz metano, mas a área onde ela é cultivada favorece a formação do metano, e ela faz o transporte desse gás”, diz a pesquisadora.

A nova pesquisa foi até a raiz do problema. Primeiro, os pesquisadores investigaram quais compostos orgânicos liberados pelas raízes das plantas (os exsudatos radiculares) influenciam a produção de metano, uma vez que essas substâncias são usadas pelas bactérias para gerar o gás.

Ao comparar diferentes variedades, os cientistas notaram que a espécie que soltava menos metano para a atmosfera liberava menos fumarato, composto que faz parte do processo metabólico da planta e pode servir de alimento para as bactérias. Em uma rodada adicional de análises, os cientistas descobriram que a variedade também liberava maior quantidade de álcool.

O cruzamento da espécie com baixo potencial de emissão de metano com uma variedade altamente produtiva gerou a nova planta. A variedade não é transgênica.

Segundo os cientistas, em experimentos feitos em diferentes campos na China, a espécie manteve o perfil de baixa liberação de fumarato e alta liberação de álcool pelas raízes, conservando a característica de menor emissão de metano. Além disso, a produtividade ficou acima da média.

“A variedade desenvolvida segue uma rota metabólica que acaba minimizando a produção de metano”, afirma Ariano de Magalhães Jr., melhorista de arroz e também pesquisador da Embrapa Clima Tropical. Magalhães Jr. não esteve envolvido no estudo, mas diz que a variedade poderia se adaptar ao solo brasileiro após melhoramentos genéticos feitos por cruzamentos com plantas locais.

Segundo Scivittaro, nos últimos anos os produtores brasileiros de arroz ficaram mais conscientes e receptivos em relação ao tema da emissão de metano e têm aberto suas lavouras para medições e experimentos.

Algumas estratégias de manejo vêm sendo estudadas levando em consideração as lavouras brasileiras, como a irrigação intermitente, que permite que o campo fique seco por períodos durante o desenvolvimento da planta sem comprometer a produtividade e, portanto, emitindo menos metano no final do processo.

Cientistas do país também trabalham na identificação de variedades com menor potencial de emissão do gás e no desenvolvimento de espécies com ciclos mais curtos, que reduzem o período de alagamento do solo.

É possível cultivar o cereal sem a inundação do campo (arroz de sequeiro), mas a produtividade é menor. No Brasil, o arroz irrigado predomina, representando quase 90% da produção, diz Magalhães Jr.

“O cultivo de arroz em ambientes alagados gera metano, mas tem um forte lado positivo, que é a produção significativa de um alimento fundamental para a população mundial”, conclui Scivittaro.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.