Entenda o que o brasileiro Carlos Lacerda tem a ver com os russos Putin e Boris Berezovsky

“Em 2022, a riqueza pessoal de Putin — parte dela oculta em contas offshore mantidas por terceiros — foi estimada entre 70 bilhões e 200 bilhões de dólares.” — Amy Knight

O que têm a ver o brasileiro Carlos Lacerda (1914-1977) com os russos Vladimir Putin, de 72 anos, e Boris Berezovsky (1946-2013)? Talvez nada.

Mas a leitura do excelente livro “Putin e os Oligarcas — A Armadilha do Kremlin” (LVM Editora, 319 páginas, tradução de Cláudio Blanc), da historiadora americana Amy Knight, inspirou-me a sugerir uma espécie de “conexão” entre Lacerda e Berezovski.

Comecemos com Lacerda, jornalista e político que, entre as décadas de 1940 e 1960, balançou o coreto da política do Brasil. Nos jornais, notadamente na “Tribuna da Imprensa”, atacava sem dó nem piedade os adversários, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, três presidentes da República.

Lacerda batia tão duro, sem luvas de pelica, e galvanizava tanto a opinião pública que decidiram chamá-lo de o “demolidor de presidentes”. Era um golpista de primeira linha, muito superior aos atuais.

Carlos Lacerda e Castello Branco: aliados e, depois, adversários | Foto: Reprodução

Em 1954, o gaúcho Getúlio Vargas se suicidou com um tiro no peito. O suicídio do presidente “matou” também o golpe de Estado que a direita extremada, com militares e civis irmanados — Lacerda era uma espécie de seu alto-falante —, estava preparando.

No governo seguinte, Lacerda articulou ataques virulentos ao presidente Juscelino Kubitschek. O bombardeiro era constante e os adjetivos mais bombásticos eram usados pelo jornalista-político para metralhar o tolerante mineiro de Diamantina.

Em 1961, depois de articular com habilidade, Lacerda contribuiu para eleger Jânio da Silva Quadros a presidente da República.

A União Democrática Nacional (UDN), com Lacerda na comissão de frente, havia chegado ao poder, finalmente.

Porém no mesmo ano, no fatídico agosto, Jânio Quadros renunciou. Conta-se que esperava voltar nos braços do povo e, sobretudo, dos militares. Só que a renúncia (golpe fracassado) acabou aceita pelo Congresso. A UDN e Lacerda dançaram, por algum tempo, a valsa do adeus.

Mesmo sob pressão militar, com a vivandeira Lacerda à frente (às vezes, atrás) da infantaria golpista, o vice João Goulart, o Jango, do PTB varguista, acabou assumindo a Presidência.

Para assumir, Jango aceitou a instalação do parlamentarismo. O moderado mineiro Tancredo Neves se tornou primeiro-ministro.

João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda: uma aliança tardia | Foto: Reprodução

Lacerda, outros civis, como Magalhães Pinto, e um grupo de militares da direita se articularam para combater e derrubar João Goulart. Fizeram o impossível para carimbar na testa do presidente que era “comunista” ou, pelo menos, “esquerdista” (na verdade, não tinha uma gota de red no “sangue”).

Em 1964, depois de muito aprontar, Lacerda, a vivandeira-chefe, e militares, como os generais Castello Branco e Costa e Silva, derrubaram o fazendeiro nacionalista Jango.

Lacerda havia, depois de muitas lutas, colaborado para entregar o poder aos militares. Era um pacto faustiano, mas de mão única.

O apoio ao golpe se deu por vários motivos. O principal é que Lacerda queria retirar o favorito Juscelino Kubitschek do páreo — das eleições de 1965 — e disputar a Presidência.

Homem cuja inteligência descia do cérebro para a língua em questão de segundos, transformando-a numa metralhadora verbal, Lacerda acreditou que os militares, dado o golpe para retirar a “esquerda” da Presidência, devolveriam o poder aos civis. Quer dizer, ao próprio Lacerda.

Integrante da Sorbonne militar, o presidente Castello Branco — um moderado — parecia “entusiasta” de devolver o poder aos civis (apreciava, por exemplo, Bilac Pinto). Mas a linha dura, capitaneada por Costa e Silva, o ministro da Guerra, pensava de maneira bem diferente.

Numa espécie de golpe pluma, Costa e Silva atropelou Castello Branco e se tornou presidente. A linha dura havia chegado, por fim, ao poder, como em 1889, com a Proclamação da República.

Militares aliaram-se a dois golpes de Getúlio Vargas — o de 1930 e o de 1937 (o que gerou um regime cruento, o Estado Novo). Ganharam espaço no governo, mas não eram os donos do poder.

Em 1945, militares, até então aliados de Getúlio Vargas, o arrancaram do poder. A fórceps. Sem contemplação.

Na eleição seguinte à ditadura do Estado Novo, o general Eurico Gaspar Dutra, um dos próceres do governo discricionário, foi eleito presidente. Com o apoio de Getúlio Vargas.

Porém, na eleição posterior, em 1950, os militares da direita udenista perderam para Getúlio Vargas. O Velhinho voltou ao poder, agora sem golpe. Os militares ficaram chupando os coldres.

Por isso, em 1964, ao derrubarem Jango, os militares sinalizaram que não sairiam do poder tão cedo. Estavam instalando uma ditadura para mandarem. Portanto, teria de ser longeva, como foi — 21 anos.

Na vida, como na política, há a figura do bobo-inteligente. Trata-se daquele que, embora inteligente, até muito inteligente, como Lacerda, parece acreditar que os demais são bobos. Por isso, subestima tanto adversários quanto aliados.

Lacerda se considerava um gênio da política, mas não percebeu o que outros compreenderam, de cara: os militares estavam chegando para ficar no poder e não para transferi-lo para civis, mesmo para aliados. Se o político “idealizou” os militares, estes o trataram com realismo.

Enganaram Lacerda? Não. Na verdade, talvez pela arrogância típica de muitos indivíduos inteligentes, o político se enganou. Trata-se de um autoengano. Não percebeu o desejo de permanência dos militares.

Acreditando-se protegido de alguns militares, Lacerda passou a criticar duramente Castello Branco. Ao não perceber as nuances — Costa e Silva não era moderado como Castello Branco —, continuou os ataques. Acabou cassado e morreu, em 1977, no ostracismo, como editor de livros. Por sinal, um bom editor. Mas sua vocação era a política.

Lacerda “armou” a ditadura, deu-lhe lógica (acusando João Goulart e aliados de “esquerdistas” e “corruptos”), contribuiu para formatar apoio popular (apostando no moralismo da classe média), mas não soube entender o projeto real dos militares — que era derrubar Jango e não sair mais do poder.

Conheça o Lacerda da Rússia do “czar” Putin

A leitura do livro de Amy Knight, ex-professora da Universidade Johns Hopkins, levou-me a pensar no oligarca Berezovsky como o Lacerda russo.

Berezovsky se tornou bilionário atuando como empresário em várias áreas (automóveis, petróleo, alumínio e mercado financeiro). De cara, percebeu que as privatizações, formuladas no governo de Boris Yeltsin, eram o mapa da mina para quem fosse ousado.

Nenhum dos oligarcas era tão ousado quanto Berezovsky. Rico, muito rico, havia chegado a hora de se tornar poderoso, em termos políticos. Então se aproximou Tatiana D’iachenko, filha do presidente Yeltsin, e do genro deste, Valentim Iumaschev. Noutras palavras, achegou-se os chefões do Kremlin.

Inteligente e sagaz, quando tudo parecia perdido, Berezovsky mobilizou recursos e pessoas para garantir a reeleição de Yeltsin.

Boris Berezovsky e Boris Yeltsin: os dois fabricaram o político Vladimir Putin | Foto: Reprodução

Mais bêbado do que gambá de pub inglês, Yeltsin, mesmo reeleito, continuou fazendo um governo de má qualidade e com corrupção ostensiva. O que fazer?

Berezovsky, sujeito dos mais espertos, contribuiu para fortalecer as relações de Putin com o entorno de Yeltsin, notadamente com o presidente.

Mais tarde, com a crise aguçada, Putin, um ex-agente de segunda linha do KGB (atual FSB), foi convocado por Yeltsin para ser primeiro-ministro. Assumiu e deu certo. (A indicação de Putin para a diretoria do onipresente FSB, sucedâneo do KGB, teve o dedo de Berezovsky.)

Na eleição seguinte, com o apoio de Yeltsin e Berezovsky, Putin chegou à Presidência da Rússia. Desde o início, jogou duro, mostrando que não era como Yeltsin. Havia chegado ao Kremlin para mandar e ficar no poder por anos — como os militares brasileiros de 1964, que só saíram do poder, quase (mas não) escorraçados, em 1985, com a vitória da dupla dinâmica Tancredo Neves e José Sarney no Colégio Eleitoral.

Vladimir Putin e Boris Berezovsky: aliados que se tornaram inimigos mortais | Fotos: Reproduções

Putin não era um político experiente. Por isso, Berezovsky deve ter pensado que poderia ser seu mestre titereiro. Dançou, porém.

Ao assumir a Presidência, Putin trouxe para o poder, para ajudá-lo a governar e redesenhar as estruturas do poder — político e econômico —, velhos aliados do KGB. Gente tão implacável quanto ele. Os oligarcas (empresários favorecidos pelas privatizações), como Berezovsky e Vladimir Gusinsky, foram deixados de lado. Ficaram, por certo, estupefatos. Subestimaram o homem que veio de “baixo”, das sombras do FSB, da alta espionagem (sabia de tudo que estava acontecendo).

Alguns oligarcas, percebendo a força de Putin, se acomodaram ao novo regime, que alguns avaliam como similar ao czarista ou até mesmo ao feudalismo (há suserano e vassalos).

Berezovsky, pelo contrário, decidiu atacar Putin. Porém, o presidente não cedeu e começou a perseguir o oligarca.

Boris Berezovsky: o bilionário que subestimou o caráter implacável de Putin | Foto: Reprodução

Além de matar vários opositores, de maneira escandalosa e à luz do dia, Putin enviou dois emissários — Andrei Lugovoi e Dmitrii Kovtun — para assassinar Alexander Litvinenko, na Inglaterra, em 2006. O aliado de Berezovsky foi envenenado com o letal polônio-210 colocado num chá.

Amy Knight, baseada nas investigações da polícia inglesa, sugere que o assassinato de Litvinenko — ex-agente do KGB — resultou de uma ação orquestrada por Putin e seus aliados. Assim como outros — vários — assassinatos ocorridos na Rússia, como o da brilhante jornalista Anna Politkovskaya (1958-2006 — viveu apenas 48 anos), quanto no exterior.

Berezovsky permaneceu atacando Putin, apesar dos alertas de que poderia ser assassinado. O oligarca chegou a escrever cartas para o ditador informando que planejava voltar para a Rússia.

Só que Putin, um presidente mafioso, não perdoa seus adversários. Em 2013, Berezovsky foi encontrado morto, na casa de uma ex-mulher. Estava sozinho com seu segurança, que nada percebeu. Tinha 67 anos. Seu psiquiatra contou que tinha uma depressão leve.

A apuração da polícia resultou inconclusiva. Há indícios de suicídio. Mas um especialista alemão sugeriu que o mais provável é que Berezovsky tenha sido morto por um mestre em assassinatos, como o esquadrão especializado do FSB. A família do oligarca credita a morte a Putin. (Leia mais sobre o caráter implacável de Vladimir Putin: https://tinyurl.com/5rxbxb59.)

Vladimir Putin e Ióssif Stálin: dois implacáveis irmãos-siameses da política da Grande Rússia | Foto: Reprodução

Por que Berezovsky lembra Lacerda? O brasileiro contribuiu para pôr dois presidentes no poder: Jânio Quadros, via eleição direta, e Castello Branco, por meio de um golpe civil-militar. Acreditava que seria um dos mandachuvas do novo regime e se tornaria presidente da República. Subestimou os militares, que lhe retiraram o “chão”.

Lacerda morreu em 21 de maio de 1977, aos 63 anos. Era o dono da Editora Nova Fronteira, que publicou autores importantes como Thomas Mann, William Faulkner, Saul Bellow, Dino Buzzati e Elias Canetti. Pode ter sido assassinado? Não há evidências disso. Mas era fato que militares — ao menos a linha dura, que era chegada a matar adversários — não queriam seu retorno à política. Assim como queriam a volta de Juscelino Kubitschek, que morreu num acidente, em 1976.

Berezovsky foi decisivo para eleger dois presidentes — Yeltsin e Putin. Talvez tenha acreditado que havia se tornado um deus da política. Por isso subestimou um político que, pouco dotado em termos intelectuais, conhecia bem as entranhas do poder. E, como tal, não tinha e não tem pudor algum. O que quer é se manter no poder a qualquer custo.

Então, de algum modo, Lacerda é o Berezovsky brasileiro e Berezovsky é o Lacerda russo. Cabe aos leitores avaliarem se a comparação tem alguma lógica ou não.

[Confira a história de Bill Browder, banqueiro anglo-americano, e Putin: https://tinyurl.com/35jhk2tf.]

(Email: [email protected])

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