Transformar a percepção sobre o autismo é chave para um futuro mais inclusivo

No dia 2 de abril, o mundo celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, uma data importante para destacar as questões que envolvem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e promover a inclusão social. Em 2025, a campanha global traz o lema “Informação gera empatia, empatia gera respeito”, acompanhado da hashtag #RESPECTRO, reforçando a necessidade de mais conscientização e ações concretas para garantir que as pessoas com TEA sejam respeitadas e incluídas em todos os aspectos da sociedade.

Para discutir os avanços e os desafios que ainda existem para alcançar a verdadeira inclusão, o Jornal Opção conversou com três profissionais que atuam diretamente com questões relacionadas ao autismo: Tatiana Takeda, advogada e professora de Direitos da Pessoa com Deficiência; Luciana Prudente, presidente da APC+ (Associação de Acolhimento à Pessoa com Paralisia Cerebral e Outras Deficiências); e Raquel Borges, psicóloga especialista em neuropsicologia e análise do comportamento. Elas compartilharam suas perspectivas sobre o que ainda precisa ser feito para que o autismo seja realmente compreendido e respeitado em todas as esferas da sociedade.

Avanços legais e o desafio da implementação

Tatiana Takeda, advogada especializada em direitos das pessoas com deficiência, começa sua reflexão destacando os importantes avanços legais que o Brasil conquistou nos últimos anos. “O Brasil possui uma legislação sólida que garante uma série de direitos às pessoas com autismo. Temos a Lei Brasileira de Inclusão, a Lei do Transtorno do Espectro Autista, além de tratados internacionais, como a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, que conferem uma base legal robusta.

Esses direitos são um grande avanço para a inclusão”, afirma Tatiana. No entanto, ela faz um alerta importante: “Apesar de toda essa legislação, o maior desafio não está na criação das leis, mas sim na sua implementação. Muitas vezes, as famílias precisam recorrer à Justiça para garantir que esses direitos sejam cumpridos na prática. Isso acontece, por exemplo, no acesso a tratamentos médicos e à educação inclusiva, que, infelizmente, ainda são resistidos em muitos casos.”

Tatiana Takeda, advogada e professora, especialista em Direitos da Pessoa com Deficiência e à Educação | Foto: Arquivo pessoal

Em seguida, Tatiana fala sobre a importância da mudança de mentalidade. “Infelizmente, ainda há um estigma muito grande em relação ao autismo. Muitas pessoas ainda enxergam o transtorno como algo que limita, e não como uma condição que exige adaptação, mas que não impede que o indivíduo tenha uma vida plena. A inclusão verdadeira não é uma ação assistencialista, mas sim um reconhecimento de que as pessoas com TEA têm os mesmos direitos e capacidades que qualquer outra pessoa.

O que precisamos é sensibilizar a sociedade para que o autismo seja compreendido de forma mais empática e não apenas como algo ‘diferente’.” Para ela, isso precisa acontecer desde as escolas, onde a preparação dos profissionais é fundamental. “A educação inclusiva vai muito além de simplesmente inserir a criança com autismo em uma sala de aula. É necessário preparar os educadores, adaptar os currículos e criar um ambiente que favoreça o desenvolvimento de todos, respeitando as especificidades de cada aluno.”

Tatiana também destaca os desafios no mercado de trabalho. “Embora existam leis, como a Lei de Cotas, que garantem a inclusão de pessoas com deficiência, as empresas ainda enfrentam muitas dificuldades para adaptar seus processos e ambientes de trabalho.

O mercado de trabalho precisa evoluir e entender que a inclusão não é apenas colocar uma pessoa com autismo no cargo, mas garantir que ela tenha as condições necessárias para se desenvolver e contribuir da melhor forma possível. Isso exige uma capacitação constante de gestores e recursos humanos.” Para Tatiana, a questão vai além da formalidade da inclusão e envolve, na prática, a criação de um ambiente realmente acessível e que favoreça o potencial dos indivíduos.

A advogada termina sua fala com um apelo à sociedade. “A inclusão não pode ser vista como uma obrigação legal, mas como um compromisso ético e humano. Precisamos de mais do que leis, precisamos de uma mudança de atitude. Se a sociedade não for capaz de respeitar as diferenças, qualquer avanço será limitado. O respeito ao autismo começa com a compreensão do que é o TEA, com o respeito ao indivíduo e com a valorização das suas capacidades. Só assim, vamos realmente conseguir construir um mundo mais inclusivo para todos.”

Desafios e ações concretas para a inclusão

Luciana Prudente, presidente da APC+, compartilha sua perspectiva sobre a realidade das famílias de pessoas com autismo, com foco nos desafios diários e na luta por um atendimento adequado. Para ela, a dificuldade começa desde o diagnóstico. “Infelizmente, o diagnóstico precoce ainda é um grande desafio no Brasil. Muitas famílias enfrentam dificuldades para encontrar profissionais capacitados e serviços especializados, o que acaba adiando a intervenção e prejudicando o desenvolvimento da criança.

Isso acontece especialmente na rede pública de saúde, onde o acesso aos serviços é limitado e as filas são longas. Essa demora no diagnóstico pode impactar profundamente a vida do indivíduo e da família.” Luciana enfatiza que, quanto mais tarde o diagnóstico, mais difíceis podem ser as intervenções para promover o desenvolvimento da criança.

Luciana Prudente, presidente da APC+ | Foto: Arquivo pessoal

Ela também fala sobre as limitações do sistema público de saúde. “O SUS, que deveria ser um grande aliado das famílias, ainda é insuficiente para atender à demanda de pessoas com autismo. Faltam recursos, profissionais qualificados e estruturas adequadas. Isso força muitas famílias a buscarem atendimento em clínicas particulares, o que nem todos têm condições de arcar.

E, muitas vezes, até os planos de saúde, que deveriam cobrir tratamentos essenciais, impõem obstáculos, como o não fornecimento de terapias de forma contínua ou o descumprimento de contratos”, comenta Luciana. Ela defende que o investimento público na formação de profissionais e no acesso ao tratamento é uma das chaves para uma real inclusão.

Luciana destaca ainda a importância de a sociedade se engajar em processos de conscientização. “O autismo precisa ser entendido e aceito, e para isso, a educação das pessoas é fundamental. Nas escolas, por exemplo, a inclusão vai muito além de colocar uma criança com autismo na mesma sala de aula.

É preciso garantir que os educadores e os colegas de classe compreendam a condição, aprendam a interagir de forma positiva e respeitosa, e que a escola esteja preparada para adaptar suas metodologias e ambiente.” Ela também acredita que a conscientização deve começar desde cedo, para criar uma cultura mais inclusiva. “Quando a sociedade começa a se educar sobre o autismo e a aceitar as diferenças, ela cria um ambiente mais acolhedor, e isso tem um impacto positivo no desenvolvimento das crianças.”

Luciana também critica a falta de suporte psicossocial para as famílias. “As famílias de crianças com autismo precisam de um suporte psicológico e social constante, para que possam lidar com os desafios diários de maneira mais saudável. Muitos pais se sentem isolados e sobrecarregados, sem saber por onde começar ou como lidar com as dificuldades.”

Ela sugere que o governo e as organizações da sociedade civil devem atuar de forma integrada para oferecer esse tipo de apoio. “É essencial que as políticas públicas não se limitem à garantia de acesso a tratamentos médicos, mas que também ofereçam suporte emocional e psicológico para as famílias.”

Para concluir, Luciana fala sobre a importância da inclusão no mercado de trabalho. “A verdadeira inclusão acontece quando as pessoas com autismo têm a oportunidade de estudar, trabalhar e viver de forma independente, como qualquer outra pessoa.

O mercado de trabalho precisa se abrir mais para esse público e, para isso, as empresas precisam oferecer condições adaptadas e investir na capacitação dos gestores. Só assim conseguiremos garantir que todos, independentemente de suas limitações, possam viver com dignidade e oportunidades.”

O papel da psicologia na inclusão e diagnóstico

Raquel Borges, psicóloga especializada em neuropsicologia e análise do comportamento, enfatiza a importância de um diagnóstico precoce para que as intervenções sejam eficazes. “O diagnóstico de autismo é um processo delicado e precisa ser realizado por profissionais qualificados. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, mais cedo a criança pode ser encaminhada para intervenções que ajudem no seu desenvolvimento social e cognitivo.”

Ela destaca que o diagnóstico pode ser desafiador, especialmente quando o autismo se apresenta de forma mais sutil, com sintomas leves que podem ser confundidos com outras condições. “Muitas vezes, os sinais não são reconhecidos no início, o que pode levar a uma demora no diagnóstico. Quanto mais tardio for o diagnóstico, mais difícil será para a criança se adaptar às intervenções necessárias”, explica Raquel.

Raquel Borges, psicóloga especializada em neuropsicologia e análise do comportamento | Foto: Arquivo pessoal

Raquel também defende a importância das intervenções baseadas em evidências científicas. “Na clínica, utilizamos abordagens que têm uma forte base científica, como a Análise Comportamental Aplicada (ABA). Essas metodologias são amplamente comprovadas e têm mostrado resultados positivos no ensino de habilidades sociais, cognitivas e de comunicação para crianças com autismo.”

Ela destaca que a intervenção precoce, que se baseia nas características individuais de cada criança, pode fazer uma diferença significativa em sua qualidade de vida e no desenvolvimento de sua autonomia.

Ela também chama a atenção para os desafios enfrentados pelos adolescentes com autismo. “Na adolescência, os adolescentes com autismo muitas vezes enfrentam dificuldades em estabelecer e manter relações sociais, o que pode levá-los a sentir-se isolados ou ansiosos. É essencial que, nessa fase, haja acompanhamento psicológico contínuo, além de um suporte especializado nas escolas.”

Raquel acredita que é preciso estar atento a essas questões, já que o transtorno pode se manifestar de forma diferente na adolescência, com desafios relacionados à identidade social e à compreensão dos códigos sociais.

Raquel também comenta sobre a importância da adaptação das escolas para garantir que os alunos com TEA possam aprender e se desenvolver de forma adequada. “Não basta apenas inserir o aluno com autismo em uma sala de aula regular. A escola precisa ser preparada para lidar com as necessidades específicas de cada aluno, o que exige capacitação dos professores e a implementação de práticas pedagógicas adaptadas.”

Ela acredita que a inclusão na escola é um ponto crucial para garantir o sucesso de uma pessoa com autismo na vida adulta. “A escola é o primeiro espaço social em que a criança interage, e é lá que ela começa a aprender as habilidades necessárias para sua vida adulta.”

Por fim, Raquel conclui com uma reflexão sobre o papel da sociedade na construção de uma cultura de respeito e inclusão. “A inclusão não é apenas uma responsabilidade das instituições ou do governo, é uma responsabilidade de toda a sociedade. Só conseguiremos mudar essa realidade quando cada um de nós entender o que significa ser inclusivo e acolhedor com as pessoas com autismo. O autismo é apenas uma característica do indivíduo, e cada pessoa com autismo tem um potencial imenso, que precisa ser reconhecido e desenvolvido.”

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