O ressurgimento da extrema-direita ao redor do mundo não é um fenômeno isolado ou um desvio acidental da história. Pelo contrário, trata-se de um desdobramento direto da crise estrutural do capitalismo e da impossibilidade de o modelo neoliberal entregar a prosperidade que prometeu. A semelhança entre fascistas e baratas é que, se estão surgindo a luz do dia, “é porque o esgoto já está cheio deles”. Como apontado por Pedro Lange Machado no artigo A democracia na roleta russa, publicado na revista Piauí, a ascensão da extrema direita pode ser compreendida em três etapas interligadas, todas elas enraizadas na lógica econômica dominante das últimas décadas.
A primeira dessas etapas foi a imposição da agenda neoliberal, que, ao longo dos anos, foi adotada por governos de diferentes espectros políticos. Essa agenda significou uma ruptura com o modelo econômico do pós-guerra, substituindo o pacto fordista por um regime de financeirização, precarização do trabalho e redução dos investimentos estatais no bem-estar social. A promessa de crescimento sustentado e desenvolvimento econômico não se concretizou para a maioria da população, mas a concentração de riqueza nas mãos de poucos se intensificou.
O resultado foi uma frustração generalizada, que criou terreno fértil para líderes populistas e discursos de extrema-direita. Esta é a segunda etapa identificada por Lange Machado: o desencanto com a política tradicional e a busca por soluções rápidas e simplistas, muitas vezes baseadas na negação da democracia e no culto a figuras autoritárias. Os partidos tradicionais, comprometidos com a manutenção da ordem neoliberal, falharam em oferecer alternativas reais para melhorar a vida das pessoas.
A terceira etapa, considerada a essência do problema, está relacionada ao que Lange Machado chama de “neoliberalismo progressista”. Trata-se de uma governança que, no plano cultural, abraça pautas progressistas, mas que, no campo econômico, continua a aplicar a lógica do mercado como princípio absoluto. Essa contradição acentua problemas sociais e elimina qualquer alternativa real ao modelo vigente, consolidando uma situação de estagnação e aprofundamento das desigualdades.
Mas é preciso ir além desse diagnóstico. A hegemonia neoliberal não surgiu apenas como uma escolha ideológica ou cultural das elites econômicas, mas como uma resposta objetiva a um problema estrutural do capitalismo: a restrição da valorização do capital devido ao avanço tecnológico e à automação. Como destacam os ensaístas Robert Kurz e Marildo Menegat, a substituição do trabalho humano por máquinas reduziu drasticamente a capacidade do capital de gerar mais-valia, levando a uma crise permanente de acumulação. Com a queda da lucratividade na produção, o capital foi deslocado para a especulação financeira, criando bolhas e aprofundando ainda mais a instabilidade econômica.
Nesse cenário, as soluções neoliberais tradicionais – como cortes de gastos, privatizações e desregulamentação do mercado – se tornaram insuficientes. O que estamos vendo agora é a ascensão de uma fase ainda mais agressiva do neoliberalismo, que alguns chamam de “ultraneoliberalismo”. Figuras como Donald Trump e Javier Milei representam essa nova vertente, que aposta em um desmonte acelerado do Estado e em um aprofundamento das desigualdades sociais, sem sequer manter a fachada de inclusão ou bem-estar para a população.
O problema é que essa agenda ultraneoliberal é politicamente insustentável dentro da democracia. A destruição das condições de vida da maioria da população leva inevitavelmente a um aumento da violência, ao fortalecimento de milícias e ao uso da força como principal meio de controle social. A extrema-direita surge, assim, como um mecanismo de sustentação desse modelo, promovendo uma retórica autoritária e beligerante que legitima o uso da repressão para manter a ordem.
É um erro pensar que a extrema-direita se opõe ao neoliberalismo. Na verdade, ela é sua continuação lógica em um estágio mais avançado de crise. Enquanto setores progressistas ainda enxergam o fenômeno como uma aberração histórica ou uma reação meramente cultural, a realidade é que estamos lidando com um mecanismo de defesa do próprio sistema capitalista diante de sua inviabilidade crescente.
A questão central, portanto, não é apenas combater a extrema-direita, mas entender que sua ascensão é sintoma de um problema mais profundo. O capitalismo enfrenta seus limites históricos, e, diante disso, apenas a construção de um novo modelo econômico e social poderá impedir que o autoritarismo continue a se fortalecer. Se essa alternativa não for colocada na mesa, a tendência é que o cenário se agrave ainda mais, com mais violência, desigualdade e destruição da democracia.
O desafio é imenso. Mas ignorar essa realidade e insistir em ajustes dentro do próprio sistema é aceitar, inevitavelmente, a consolidação de um mundo cada vez mais excludente e repressivo.
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